A ciência do estar junto
Por que a recorrência do encontro importa mais do que o motivo
São oito e meia da noite e o gol ainda não terminou de acontecer na tela quando já dá pra ouvir, do lado de fora. Um grito sai de uma janela, depois de outra, e, em três segundos, a rua inteira está reagindo ao mesmo lance, em uma espécie de eco. Em algum lugar, alguém está batendo panela. Em outro, uma criança (ou um adulto) está chorando porque tinha certeza de que ia ser gol.
Essa cena se repete no Brasil a cada quatro anos, ou até mesmo a cada domingo em algumas famílias, e a gente a trata como óbvia, como se fosse só o jeito que as coisas são.
Mas tem uma ilha no Japão onde um grupo de pesquisadores em longevidade achou algo parecido com isso, só que sem bola.
O moai é uma tradição japonesa de Okinawa que significa “reunião para um propósito comum”, definindo um grupo de amigos que se apoia desde a juventude até a velhice. Esse círculo comunitário serve para se ajudarem emocionalmente, socialmente e financeiramente.
O que resultou disso, e o que os pesquisadores do projeto Blue Zones1 apontam como um dos fatores centrais por trás da longevidade extrema da região, é o encontro em si. A regularidade. O fato de que, em uma data certa, um grupo de gente vai estar junto, sem precisar de motivo. Dan Buettner, que documentou essas comunidades, descreve o moai como parte da arquitetura social de Okinawa, não como um extra.
E a ciência por trás disso é bem concreta. Julianne Holt-Lunstad, pesquisadora da Brigham Young University, revisou décadas de estudos e concluiu que pessoas com laços sociais fortes têm uma chance significativamente maior de sobreviver, em qualquer período de tempo analisado, do que pessoas isoladas.
O Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard2, que acompanha as mesmas pessoas há mais de 80 anos, chegou a uma conclusão parecida: o fator que mais prevê saúde e bem-estar na velhice não é o colesterol nem o dinheiro. É a qualidade das relações.
Voltando agora pra rua durante a Copa.
Uma pesquisa da Anglia Ruskin University, no Reino Unido, com mais de sete mil pessoas3, concluiu que assistir a eventos esportivos junto com outras pessoas aumenta a satisfação com a vida e reduz a sensação de solidão. Não é o jogo. É o “junto”.
Eu não sou uma superfã de futebol, ou de nenhum esporte. Assisti a muitos jogos nos estádios, e a muitos pela TV. Amei cada um desses momentos, mesmo que o meu time tivesse perdido, por causa da energia que fica no ar quando a gente está cercada de amigos.
Eu não sou uma superfã de nenhum esporte. Ainda assim, nunca perco a Copa do Mundo, seja a masculina ou a feminina, e adoro as Olimpíadas. Quando era mais jovem, fui a muitos jogos nos estádios e assisti a muitos outros pela TV. Amei cada um desses momentos, mesmo quando o meu time perdia, por causa da energia que surge quando a gente está cercada de amigos.
Nos últimos 20 anos, em grande parte por ter me mudado do Brasil para os Estados Unidos, acabei deixando essas atividades meio de lado. Fui a alguns jogos de beisebol por aqui, só por curiosidade. Hoje, quase sempre acompanho os grandes eventos esportivos do sofá de casa. O que realmente sinto falta são as churrascadas e aqueles dias em que o bairro inteiro parecia estar em festa sempre que havia uma grande decisão.
Eu lembro que, nos dias de jogo, a casa às vezes enchia. A vizinhança e a parentada apareciam sem avisar, todo mundo comia e bebia junto, gritava e torcia junto, mesmo que cada um tivesse um motivo um pouco diferente pra isso.
Naquele tempo e agora, alguns estão ali porque amam futebol, alguns porque não querem cozinhar em casa, ou ficar sozinhos, e esses eventos viram uma desculpa ótima pra alguém não ficar mais uma tarde ou noite sem companhia. O jogo reúne, mas o encontro é o que sustenta.
Outro detalhe nessa equação. No seu bairro, por exemplo, tem gente de times diferentes. Quem nem se fala o ano inteiro por causa de Flamengo, Corinthians, Inter, Grêmio, Palmeiras, quando assiste à Copa veste a mesma camisa e bebe da mesma garrafa. A rivalidade esportiva e até a política somem por algumas horas. É bem legal ver gente que discorda de quase tudo, sentada no mesmo sofá e gritando pela mesma coisa.
Isso é um moai. A gente é que nunca chamou assim.
A boa notícia é que essa estrutura não depende da Copa, nem do jogo de domingo para existir, e nem do futebol. O ingrediente ativo aqui não é o esporte, e sim a recorrência. É saber que, naquele horário, naquele dia, vai ter gente reunida. Pode ser o jogo do Brasil, o futebol americano para quem mora fora, o críquete, o rugby, a liga local de qualquer coisa.
E entram aí o jantar toda sexta, uma caminhada toda terça, um grupo que se encontra para jogar cartas. O corpo não parece distinguir muito bem a fonte da companhia. Ele só registra se ela está lá ou não.
Como moro “no meio do mato”, meus encontros sociais são quase exclusivamente online. Isso não os torna menos importantes, divertidos, “curativos” ou educativos. Eles são tudo isso e mais, a ponto de eu sair de cada conversa como se estivesse com aquelas pessoas ao vivo. E, sendo fiel ao significado de Moai, tenho também um grupo de amigos de infância e do colégio que conheço há mais de 40 anos; nos falamos regularmente pelo WhatsApp e nos encontramos anualmente.
A Copa do Mundo, com toda a bagunça, o barulho e as panelas, faz, por 30 ou 40 dias, de forma automática, algo que normalmente exige esforço pra manter: ela recria, sem ninguém combinar nada, uma rotina de encontro.
Em algumas semanas, quando ela acabar e a rotina normal voltar, talvez fique uma pergunta: o que dessa estrutura vale a pena manter, mesmo sem bola rolando? Não precisa ser nada grandioso, só algo que você realmente aprecie e que caiba na sua semana.
E, se a resposta for “nada disso existe na minha vida agora”, talvez o aprendizado da Copa seja esse: que tipo de desculpa você gostaria de inventar pra trazer gente pra perto de novo?
Se você gostou desse assunto e quer saber um pouco mais, vá aqui:
Biohacking social
Este artigo explica por que a solidão inflama o corpo tanto quanto o açúcar, com a ciência por trás dessa conexão e exemplos de como comunidades longevas organizam a vida social. No final, biohacks simples para quem vive meio isolado ou quer fortalecer seus vínculos.






Dan Buetner e suas Blue Zones enfatizaram o lado errado. Não é o veganismo que sustenta a longevidade, até porque nenhuma das blue zones é de fato comedora de vegetais (talvez apenas Lomalinda). O que sustenta a longevidade são as relações! Excelente material!
Maravilhosa, like always!!!!!